quarta-feira, janeiro 28, 2026

Teorias da Comunicação - Abordagens e análises


 

Desde que comecei a lecionar a disciplina Teorias da Comunicação, há mais de 20 anos, eu sempre estimulei meus alunos a usarem essas teorias para analisarem produtos dos meios de comunicação, em especial os da cultura pop. O livro Teorias da Comunicação - abordagens e análises eu reúno alguns dos melhores artigos produzidos pelos meus alunos do curso de Jornalismo da Unifap. Nos textos eles usam os mais diversos teóricos para compreender histórias em quadrinhos, séries, filmes e até a indústria do K-pop. 

O e-book é gratuito e pode ser baixado neste link

Receita de bolo de laranja

 

INGREDIENTES

MODO DE PREPARO

  1. Bata no liquidificador os ovos, o açúcar, o óleo, o suco e a casca da laranja.
  2. Passe para uma tigela e acrescente a farinha de trigo e o fermento.
  3. Leve para assar em uma forma com furo central, untada e enfarinhada, por mais ou menos 30 minutos.
  4. Desenforme o bolo e molhe com suco de laranja.

Hulk - A cura do Dr. Banner

 


Um dos pontos altos da fase de Roger Stern à frente do golias esmeralda é a saga do Líder, que se estende dos números 223 ao 225.

Na história, algo acontece que cura Banner, fazendo com que ele não se transforme mais no Hulk. Isso é mostrado em uma sequência hilária em que o monstro cai próximo de um casal de namorados e reverte para o cientista. “Por algum motivo, a química do meu corpo deve ter mudado o suficiente para... esgotar a radiação química do meu corpo. Viva! Estou curado”, comemora o cientista. Quando ele, feliz, dá um beijo na garota, e recebe um soco do namorado enciumado, vem a comprovação: mesmo com raiva, ele não se transforma.

Sal Buscema sabia como ninguém demonstrar a ferocidade do Hulk. 


Mas, em paralelo a isso, o Líder dominou completamente a base militar comandada pelo general Ross. Pior: ele pretende usar a tecnologia da base para dominar completamente o mundo, controlando os computadores militares. Segundo o vilão, ele conseguiria dominar facilmente Os Vingadores ou o Quarteto Fantástico. “Somente o Hulk, com sua ignorância furiosa, era um fator para o qual eu não podia planejar facilmente”, diz ele.

De fato, ele controla até mesmo o Doutor Sanson, impondo a ele um bloqueio mental que o impede de atacar o vilão. Assim, só o Hulk poderia deter o sujeito, mas o Hulk não existe mais. Ou existe?

Banner está curado? 


Roger Stern engana o leitor colocando um Hulk para lutar contra o Líder, mas este é apenas um robô criado pelos militares e guiado por Banner através de um “arreio de controle gama”, o que quer que isso signifique. O aparelho, aliás, quase provoca a morte de Banner e a única solução encontrada para salvar sua vida... é transformá-lo novamente no Hulk!

Ou seja: a cura de Banner é usada apenas como uma estratégia narrativa de suspense, fazendo com que uma história que poderia durar um número se estenda por três edições. É divertido, mas passa o longe de ser o melhor do roteirista.

Só o Hulk poderia deter o Líder. 


Um grande destaque aqui vai para o desenho de Sal Buscema que se consolida como o desenhista definitivo do golias esmeralda. A página dupla em que ele cai no meio dos namorados depois de um salto é impressionante. O mais novo dos Buscema destaca a força e agressividade dele com várias estratégias. Uma delas é aumentando o tamanho dos pés do personagem, o que lhe dá a aparência de alguém bruto.

Perry Rhodan – O imortal

Escrito por K. H. Scheer, o volume 19 da coleção Perry Rhodan apresenta o final da saga da imortalidade. Nos números anteriores, a tripulação da Stardust III se envolvera nos mais diversos tipos de perigos e charadas em busca do planeta que encerrava o segredo da ducha celular.

Mas a partida tem um risco imenso: o planeta do sistema ferrol transformou-se em uma supernova e irá explodir caso Perry Rhodan não cumpra a última tarefa.

K. H. Scheer servira dentro de um submarino na II Guerra Mundial e era um especialista em descrever equipamentos e máquinas. Melhor ainda: ele fazia isso de maneira que o leitor conseguia visualizar mesmo um equipamento alienígena: “Rhodan viu brilhantes pontinhos luminosos luzirem em sua escala de controle. Os torretes armados da Stardust-III foram projetados para fora automaticamente”. Além disso, sua experiência fizera com que ele se preocupasse com detalhes que na época pareciam sem a menor importância, como cintos de segurança. Enquanto em Jornada nas Estrelas os protagonistas eram sacudidos para fora de suas cadeiras a cada turbulência, na série alemã não só os cintos de segurança, mas cintos que se recolhiam automaticamente eram comuns, como faz questão de lembrar shceer neste volume.

A capa original alemã. 



A atenção a dados técnicos pode dar a entender que o autor ignorava o aspecto humano, o que não ocorre. Quando Bell mais uma vez se revolta com o brincalhão Gucky, Rhodan diz: “Cada ser inteligente tem peculiaridades próprias. Como pessoas tolerantes, nossa obrigação é aceitá-las”. Mais à frente, quando Gucky faz amizade com Betty Toufry, é Bell que reflete: “O espontâneo entendimento entre uma representante da jovem geração humana e uma inteligência completamente alienígena, oriunda das profundezas da galáxia, poderia representar o primeiro passo na senda da compreensão e da aceitação mútua”. Nitidamente, Scheer imagina uma utopia em que os seres mais diversos conviviam em harmonia.

Quando finalmente os terrestres encontram o planeta peregrino, os dons descritivos do autor vêm bem a calhar. Sua descrição detalhada da gigantesca estação espacial de 8 mil quilômetros é empolgante e repleta de sense of wonder, com plantas e animais de todas as épocas e locais.

Se os autores imaginassem que a série perry rhodan duraria mais do que duas dezenas de números, essa saga teria sido muito maior e este livro fecharia com chave de ouro um ciclo.

Duetos Essenciais

 


Em meados da década de 1990 eu conheci o trabalho de quadrinhos de Edgar Franco e me impressionei com seu estilo (que viria a ser chamado de poético-filosófico). Eu percebi que aquele traço era muito mais adequado para transmitir ideias do que para contar histórias tradicionais. E fiz um roteiro para ele, baseado no mito da caverna, de Platão. Esse foi um dos trabalhos que marcaram a maturidade artística desse quadrinistas, a começar pela belíssima primeira página, em que desenho, textos se unem, formando uma única image. Publicada em diversos fanzines ao longo da década de 1990, essa HQ chegou a ser objetivo de apresentação em congresso no qual Edgar explicitava o processo criativo e discutia as referências filosóficas da obra. Recentemente a HQ foi publicada no álbum Duetos Essenciais, lançada em 2017 pela Marca de Fantasia.

Batman – Na pista do gancho

 


Na década de 1960, a revista The Brave and the Bold, que estreara na década de 1950 publicando personagens como o Cavaleiro Silencioso ou o Gladiador Dourado, tinha se tornado uma publicação que unia sempre dois heróis da DC.

Um desses encontros, no número 79 da revista, reuniu dois personagens muito diferentes: Batman e Desafiador. O Desafiador era um trapezista que morrera e cujo fantasma voltara para a terra para procurar o responsável por seu assassinato, um homem que usava um gancho na mão esquerda.

Neal Adams era um grande narrador visual. 

O que junta os dois personagens é um assassinato de um peixe pequeno em Gothan. Ocorre que o homem que o matara, segundo uma testemunha, tinha um gancho no lugar de uma das mãos – o que faz com que o Desafiador tente convencer o Batman, “o maior detetive do mundo”, a investigar o caso, que pode estar ligado ao seu próprio assassinato.

O plot é interessante, mas tudo é muito forçado, a começar pela história do gancho, que seria a única coisa que ligaria os dois personagens. Igualmente forçada é a forma como Batman, “o maior detetive do mundo”, resolve o caso. Sinceramente, eu gostaria de ver o “maior detetive do mundo” usando a dedução ao invés da simples intuição.

A diagramação inovadora de Neal Adams funcionava perfeitamente para um personagem como O Desafiador. 

Mas há bons momentos, a começar pela página inicial, que mostra o assassinato do bandido, uma sequência primorosa de Neal Adams, que se revelava desde aquela época um grande narrador visual. Além disso, a diagramação inovadora e nada convencional contribuía muito para uma história em que um dos protagonistas é um fantasma que vive flutuando por aí. As sequências em que o Desafiador incorpora em pessoas para atuar no mundo físico também são interessantes, embora mal-utilizadas. 

A arte incrível de Chris Wahl

 


Chris Wall é um artista australiano de quadrinhos. Ele começou sua carreira em 1992 com um quadrinho de ficção científica e fantasia chamado Oblagon .Em 1993 ele abriu a editora X-press Comics e publicou a revista Platinum, que durou apenas três edições, mas ganhou diversos prêmios.  Ele então se tornou um requisitado capista, tendo produzido capas para a MAD, Fantasma e Tank Girl, entre outros.  














A incrível Suzana e o cinema de equívocos

 

  

Um dos temas prediletos do diretor Billy Wilder é o de uma pessoa se fazendo passar por outra. Exemplos disso são Quanto mais quente melhor (em que dois músicos se disfarçam de mulheres para fugir de mafiosos) e Cinco Covas do Egito (em que um soldado inglês se faz passar por um garçom egípcio para espionar os nazistas). Outro ótimo exemplo é A incrível Suzana, em que uma mulher se faz passsar por uma garotinha para pagar meia passagem no trem e voltar para casa após se decepcionar com Nova York.

A questão da dupla identidade constantemente foge do controle dos protagonistas e leva a cenas constantemente equívocas, que podem e devem ser lidas de maneira  dúbia.

Em Quanto mais quente melhor, uma das melhores cenas é aquela em que Tony Curtis se faz passar por tímido para conquistar Marilyn Monroe, que acredita estar conquisantando um homem traumatizado por um relacionamento ruim. Cada gesto, cada palavra traz em si dois sentidos diferentes. Em determinado momento, o herói finge fugir do beijo da  garota, quando na verdade, está extasiado com o mesmo.

Em  A incrível Suzana, ao ser descoberta, Suzana (Ginger Rogers) entra na cabine do major Philip Kirby (Ray Milland), que acredita que ela é uma criança (ou finge acreditar) e a trata como se fosse uma sobrinha. A cena em que ela acorda com um raio e ele a conforta é repleta de conteúdo sexual implícito e uma aula de como trabalhar o duplo sentido no cinema.

Claro que isso só era possível graças ao incrível talento de artistas como  Ginger Rogers, Ray Milland, Marilyn Monroe e Tony Curtis.

Em uma época em que o cinema podia mostrar muito pouco, mestres como Billy Wilder  brilhavam com a genialidade de diálogos equívocos. Assim, uma premissa tola transformava-se em um grande filme.

terça-feira, janeiro 27, 2026

Cats

 


Cats é considerado o pior filme de 2019 e um dos piores da história do cinema. E não é por acaso. 
O filme é tão confuso que se torna difícil resumi-lo. Aparentemente é a história de uma gatinha abandonada que chega em um tribo felina no momento em que eles estão escolhendo o gato que irá para um local paradisíaco, onde terá uma nova vida. 
O filme não tem diálogos, apenas músicas, a maioria delas apenas de apresentação dos personagens, o que torna tudo muito confuso. Não dá para saber o que de fato está acontecendo e temos a impressão de que, no final das contas, o escolhido vai ter a honra de… morrer!
A caracterização da maioria dos gatos não é tão ruim. Mas ainda parece que são pessoas vestidas de gatos. E os gatos parecem pouco felinos, inclusive em termos de personalidade.
No final, a grande conclusão de pets, refletida na música final é: gatos não são cachorros. Se eu não tivesse assistido Cats nunca teria desconfiado disso.

Jornada nas estrelas – o equilíbrio do terror

 


Um dos melhores episódios da primeira temporada da série clássica de Jornada nas Estrelas, O equilíbrio do terror é mais do que uma história de batalha, é um triller de suspense com roteiro muito bem amarrado.
A história se passa 20 anos após a guerra entre os terráqueos e os romulanos. A guerra aconteceu sem que um romulano fosse visto e terminou com um tratado negociado via rádio, que estabeleceu uma zona neutra, guarnecida por vários postos avançados da Terra.
A Entreprise é chamada quando esses postos começam a ser destruídos por uma misteriosa nave invisível com uma arma capaz de destruir o mais resistente metal.
O episódio é um jogo de gato e rato, uma versão estelar dos filmes de batalhas entre navios e submarinos. O fato da nave inimiga ser invisível cria um clima de tensão crescente, assim como o embate entre os dois comandantes, Kirk e o romulano, cada um tentando antecipar o movimento do outro. Já no fim de suas forças, o comandante romulano usa de todos os artifícios, inclusive ejetar destroços no espaço, simulando a destruição da própria nave.
Uma falha nas comunicação faz com que a Entreprise capte imagens internas da nave, e fica óbvia a semelhança entre os romulanos e Spock, o que serve de ponte para que o roteirista discuta a questão do preconceito quando um dos tripulantes da Entreprise cogita a possibilidade de Spock ser um espião romulano.
O roteiro bem construído, em que tudo se encaixa, inclusive o casamento interrompido no início do episódio e a semelhança de personalidade entre os dois capitães, assim como o suspense em escala crescente tornam esse episódio memorável.

Link-se: a mídia mudando a arte

 


Marshall McLuhan dizia que a forma como o ser-humano se comunica molda a sociedade e até o seu o cérebro. E uma das áreas mais influenciadas pelas mudanças nas tecnologias de comunicação é a arte. Exemplo disso foi a invenção da fotografia, que transformou completamente os rumos da pintura, tendo como uma das consequências a criação do Impressionismo. Mais recentemente a invenção do computador, da internet e das redes sócias provocaram mudanças ainda maiores nas artes. É sobre esse fenômeno que Giselle Beiguelman se debruça em Link-se: arte/mídia/política/cibercultura (Peirópolis, 176 páginas).
Giselle Beiguelman é referência obrigatória quando o assunto é arte digital e on-line. Seu trabalho é referência em cursos de pós-graduação de universidades brasileiras, americanas e europeias. É autora dos premiados O livro depois do livro e Egoscópio e Paisagem. Desde 2001 cria projetos que utilizam dispositivos de comunicação móvel, como Poétrica e Esc for escape.
O livro reúne textos publicados em revistas, jornais e sites. Neles, a autora reflete sobre os mais diversos campos da arte e sua relação com a tecnologia.
Um dos autores mais interessantes é Eduardo Kac (http://www.ekac.org) , um artista especializado em bioarte. Um dos seus trabalhos mais famosos é “Gênesis”, exposto no Itaú Cultural no ano de 2000. Kac criou um gene sintético, chamado de gene artístico, com uma frase da Bíblia traduzida para código Morse e depois para código genético. A frase era: “Que o homem domine os peixes do mar e voo no ar e sobre todos os  seres que vivem na Terra”. O resultado foi uma bactéria fosforescente. Através da internet era possível aos expectadores  controlar a iluminação ultravioleta, causando modificações genéticas na bactéria.
Em “O oitavo dia”, uma colônia de  amebas fluorescentes vivem dentro de uma redoma de vidro, funcionando com o cérebro de um robô. A cada vez que as amebas se reproduziam, o robô se movia para cima e para baixo, ou para os lados. Os internautas também podiam interagir, modificando o ecossistema da obra.
Uma outra discussão interessante está relacionado ao fato de que a internet não é apenas um meio de comunicação, mas uma máquina de ler que transforma cada leitor em um editor em potencial. Assim, ela força o receptor a exercer com mais rigor sua faculdade mais exclusiva: a de intérprete. “A responsabilidade pelo conteúdo passa a ser fruto de seu crivo crítico, referendado pela solidez de sua formação cultural e não apenas calçado pela referência a um nome próprio, à logomarca de uma empresa ou o brasão de uma instituição”, escreve Giselle.
Um trabalho que se encaixa dentro dessa discussão é “Assina: do texto ao contexto”, de Cícero Inácio da Silva. Projeto de doutorado, usa a internet para discutir a autenticidade e autenticação, o nome próprio, assinatura, a legibilidade e o reconhecimento.
Cícero criou sites fakes com nomes pomposos, como Instituto Gilles Deleuze, repletos de citações dos autores homenageados. Os textos, no entanto, não fazem nenhum sentido. São gerados por um programa de computador em português e depois traduzidos para o espanhol por tradutores gratuitos na internet.
Os textos passaram a ser citados em dissertações de mestrado por pesquisadores brasileiros, que utilizam o texto em espanhol, convertendo-o para o português.
O projeto também mantém três periódicos internacionais, todos com registro de ISSN. Mas ISSN aqui significa Interstellar Synchronism Setup Noise. A mais famosa delas é “Plato on-line; Nothing, Science and Technology”, que só publica textos gerados por computador e não aceita contribuições a não ser que o autor concorde que seu texto seja modificado pelo algoritmo.
Quando alguém escreve para a revista submetendo um artigo, Cícero escreve em português e converte para o inglês usando um tradutor on-line. Apesar do resultado muitas vezes ser ininteligível, nenhum dos pesquisadores com os quais ele se correspondeu jamais reclamou.
Um ponto ainda mais esclarecedor foram os protestos e ameaças de processos por parte dos intelectuais cujo nome Cícero usa em seus sites. O editor de um dos mais respeitados periódicos sobre novas mídias, depois de “”entender” o projeto , autorizou o uso de seu nome por UM MÊS (em caixa alta), nenhum segundo mais .
Todos os sites trazem um rodapé explicando que se trata de um projeto de pesquisa e um experimento artístico, mas “as pessoas não leem as informações ou os detalhes. Ficam imersas nesse mundo cheio de textos e mais textos e somente se apropriam daquilo que ‘serve’ para elas em determinado momento. Não há mais pensamento ou reflexão sobre o dito”, diz Cícero.
Pelo jeito, nem mesmo nos meios acadêmicos há essa preocupação. Na exigência de se escrever e publicar textos e mais textos científicos, a leitura detalhada é deixada de lado. O que vale é citar muito e citar os autores certos, os autores da moda, como Deleuze.
Nesse sentido, o trabalho de Cícero se insere na mais verdadeira obra de arte: a que reflete sobre o mundo e, nesse sentido, sintetiza o tema de todo o livro de Giselle Beiguelman.
Como a obra é de 2005, ficam de fora vários trabalhos mais recentes dos artistas citados. Assim, vale a pena seguir os links indicados no final de cada capítulo para se inteirar sobre as obras mais recentes dos mesmos. Link-se, portanto, é uma obra que não se fecha no escrito, mas exige que o leitor interaja seguindo as indicações de sites e se atualizando sobre o que está no volume impresso.

O incrível Hulk contra o mestre dos metais

 


Pense num desenhista do incrível Hulk. Dificilmente você terá pensado em Steve Ditko. No entanto, ele foi um dos primeiros artistas do personagem, tendo ilustrado o número 6 da primeira versão da revista.

Na trama, escrita por Stan Lee,a terra é invadida por um alienígena chamado Mestre dos Metais, que, como o próprio nome diz, é capaz de controlar metais. Ele quer usar essa capacidade para dominar o mundo e, aparentemente, o único que pode derrota-lo é o Hulk, uma vez que todos os misseis e demais armas usados contra ele são derretidos ou transformados.

O Hulk inventa uma arma para combater o alienígena. 


A solução, encontrada por Bruce Banner, é tão simples e óbvia que parece difícil acreditar que nenhum dos militares tenha pensado nisso – ou talvez fosse uma crítica velada aos militares e sua falta e inteligência, quem sabe.

Uma curiosidade é que nessa fase do personagem, a transformação se dava através de uma máquina de emissão de raios gama e o Hulk continuava inteligente. “Que bom que você se lembra de quase todo o conhecimento científico do Banner, Hulk”, diz Rick Jones à certa altura. Há uma sequência em que o Hulk fica enfurecido... e se transforma em Bruce Banner! Decididamente não era o Hulk que conhecemos.  

O Hulk se transformava através de uma máquina...


Mas Stan Lee deve ter percebido que a transformação via máquina tirava boa parte do charme do personagem e deu um jeito de se livrar dela. Assim, em determinado trecho Banner se transforma em Hulk, mas sua cabeça continua normal, em outro ponto ele tenta voltar a ser Bruce Banner usando a máquina e não consegue.

... mas a transformação nem sempre dava certo. 


O que eram incoerências de uma época em que os autores ainda estavam tentando definir o personagem depois é aproveitado por ótimos roteiristas que pegariam o personagem, a exemplo de Peter David e Paul Jenkins, que mostraram Bruce Banner como sendo alguém com múltipla-personalidade.  

Novos Titãs – Ciborg

 


Houve uma época em que o título dos Novos Titãs se tornou tão popular que, além da série mensal, ganhou uma minissérie intitulada Tales of the New Teen Titans. Dividia em quatro partes, ela destrinchava as origens de alguns personagens da turma.

Na trama, o grupo vai passar um final de semana no Grand Cannyon. Entre fogueira, tendas e churrasco, eles conversam e vão aos poucos revelando detalhes sobre o passado.

Os heróis finalmente têm um descanso e isso os leva a conversar sobre suas vidas.


O primeiro número é focado no Ciborg e coloca em destaque o tema da série: o conflito de gerações e esse conflito já surge desde a infância. O personagem foi criado pelos pais cientistas como se fosse uma cobaia de suas experiências: “Eles me examinavam, testavam, plugavam e sabe Deus o que mais”.

A pesquisa fez com que ele fosse isolado a ponto de nem mesmo ir para a escola. Assim, quando um dia ele sai e quase é atropelado, isso faz com que ele se torne amigo do rapaz que o salvou. Aqui Marv Wolfman introduz um outro tema na história: a questão do racismo, já que o novo amigo do Ciborg é um militante anti-racista.

Ciborg foi criado como uma cobaia. 


O leitor acompanha toda a saga do personagem: sua quase morte num experimento da mãe, a tentativa do pai de salvá-lo implantando partes cibernéticas e o ódio que este alimenta pelo progenitor: “Maldito seja... sou exatamente o que você quer agora. Eu te odeio, velho. Eu te odeio. Por que não me deixou morrer?”.

Há duas inovações na forma como super-heróis adolescentes eram mostrados nos quadrinhos. Antes, eles se acostumavam rapidamente e se sentiam até felizes com os novos poderes. Além disso, demonstravam uma verdadeira idolatria por personagens mais velhos, como pais ou tutores. Ciborg é exatamente o oposto: ele odeia os próprios poderes e mais ainda o pai.

O tema da história é o conflito de gerações. 


Claro, que, como toda jornada, ele vai aprender a lidar com essas aflições e aqui ele já demostra uma reconciliação com o pai. “Por sua causa, meus verdadeiros amigos, comecei a amar o meu pai... e o amei até a hora da minha morte”.

Da mesma forma que os X-men, Novos Titãs mostravam heróis adolescentes em um grupo que cada um se ajudava no duro processo de amadurecimento. Não espanta, portanto, que fossem as duas revistas que mais vendiam na época.

No Brasil essa minissérie foi escolhida pela editora Abril para estrear a revista Novos Titãs. Uma forma inteligente de começar a nova revista e, ao mesmo tempo, apresentar os personagens para novos leitores. 

segunda-feira, janeiro 26, 2026

Vidro

 

M. Night Shyamalan é o diretor de Hollywood que melhor entendeu os quadrinhos. Prova disso é seu novo filme, Vidro, que fecha a trilogia iniciada em Corpo Fechado.
A película é, essencialmente, uma grande homenagem aos quadrinhos.
Tudo é pensado como homenagem e referência. Além das referências óbvias, que são expressas em diálogos entre os personagens, há os nomes de personagens, como Crumb (Robert Crumb foi o papa do quadrinho underground). Mas há mais: a vilã, por exemplo, é uma psicóloga que acredita que os super-heróis são um gênero nocivo (os mais ligados vão se lembrar do psicólogo Fredrick Werthan, que na década de 1950 realizou uma verdadeira cruzada contra os gibis).
Neste filme vemos finalmente o confronto do Senhor Vidro, a Horda e o Vigilante. Mas não espere um filme pipoca. O foco é muito menos nas brigas e muito mais no desenvolvimento dos personagens, na exploração de suas personalidades. Nós descobrimos, por exemplo, porque o vigilante, embora seja invulnerável, pode ser morto com a água. A genialidade de Vidro é muito melhor explorada e exemplificada. Ele é mostrado aqui como alguém frágil apenas fisicamente, mas cujos dotes intelectuais são espantosos, como um grande jogador de xadrez, que antecipa todas as jogadas de seus adversários.
A direção também remete diretamente aos quadrinhos. Shyamalan na maioria das vezes não mostra as ações, mas o resultado delas, como nas elipses quadrinísticas.
O roteiro encaixa os três filmes como um quebra-cabeças muito bem elaborado. E o plot twist final é digno do diretor de Sexto Sentido.
Não vá esperando um filme dos Vingadores. Mas se você gosta de quadrinhos e gosta de filmes inteligentes, Vidro é uma ótima pedida. 

Batman – O messias

 


Publicada em 1988, pouco depois do Cavaleiro das Trevas, a minissérie em quatro capítulos Batman – O messias juntou dois dos maiores nomes da indústria dos quadrinhos, Jim Starlin (roteiros) e Berni Wrightson (desenhos), numa das histórias mais polêmicas e impactantes do personagem.

Na trama, vários bandidos de Gothan são assassinados e, ao investigar o caso, Batman conclui que os assassinos vieram dos esgotos (vale destacar aqui que Batman age como um detetive de verdade: ao invés de simplesmente usar a intuição, como na maioria das histórias, ele analisa a cena do crime). Ao investigar, ele é aprisionado, torturado, drogado e submetido a uma lavagem cerebral por parte do Diácono Blackfire, um fanático religioso que pretende purificar Gothan e, no processo, tomar conta da cidade.

Batman é torturado e submetido a uma lavagem cerebral.


A narrativa foge totalmente do convencional, ao misturar delírios com flash backs. No tempo presente, Batman está amarrado e sendo torturado.

A sombria sequência inicial é uma amostra do talento dos dois artistas. Enquanto Bruce Wayne adentra numa mansão, o texto cria o clima sinistro: “Algo gélido e infinito me espera. Meu espírito suplica para que eu fuja. Entretanto, pra meu horror, eu abro a porta. Não consegui evitar. Compulsão”.

As telas de TV: influência de Cavaleiro das Trevas. 


A influência de Cavaleiro das Trevas, publicada poucos anos antes, é visível não só na abordagem densa, mas também na narrativa. Ali estão, por exemplo, as telas de TV, com pessoas dando sua opinião sobre o Diácono ou âncoras atualizando os expectadores sobre os acontecimentos. Aliás, uma sequência inteira (da morte dos pais de Bruce Wayne) é reproduzida exatamente como na obra de Frank Miller.

Mas Starlin e Wrightson não se limitam a imitar (com muita competência) Miller. Eles também criam estratégias narrativas inovadoras, como quadrinhos que se quebram como cacos de vidro ou a sequência em que Batman, num delírio, é envolvido por espinhos e tem seu rosto fatiado.

A HQ tem soluções criativas para mostrar os delírios de Batman. 


Os perigos do fanatismo religioso é um dos temas mais caros a Jim Starlin, abordado em toda as suas obras autorais, de Warlock a Dreadstar, então não é surpresa que o tema fizesse sua aparição em Batman. Starlin não só cria uma metáfora sobre os perigos da religião como ainda destrincha, passo a passo, o processo de lavagem cerebral que líderes religiosos utilizam para fanatizar seus seguidores. É o tipo de obra que só seria possível nos revolucionários anos 80, uma das épocas mais criativas dos quadrinhos de super-heróis.